sábado, 21 de março de 2015

Divórcio à vista?

A grande ausente na cena política brasileira parece ser, agora como em junho de 2013, a classe trabalhadora. Claro está  que não vejo como “a classe trabalhadora presente na cena política” os aparatos sindicais e suas áreas de influência imediatas mobilizados na última sexta-feira 13 para defender o governo Dilma das pechas de corrupto e incompetente. 

Esse fato admite, por certo, uma mescla de interpretações conjunturais, estruturais, econômicas, sociológicas, antropológicas e até históricas. Mas como este blog não é capaz de ir tão longe, nem tão fundo, eu prefiro seguir a pista das declarações que vêm saindo da boca da presidente, dos chefes petistas e até do presidente da câmara, a indicar que "a corrupção no Brasil não nasceu ontem e suas raízes contemporâneas estão fincadas no governo FHC”. 

Em face de tal álibi, um jovem trabalhador interessado na vida da nação (atitude rara no seio do patronato, é bom que se diga) poderia pensar: “Certo. A privataria tucana. Ouvi falar dela quando era criança. Mas o que é que o partido que pretende representar a minha classe social andou fazendo esse tempo todo que não moveu uma palha para investigar os malfeitos herdados nem para acabar com a corrupção vicejante bem debaixo do seu nariz e ao abrigo de suas próprias nomeações políticas?" 

Sejamos sinceros: para qualquer trabalhador que ainda se considere representado pelo governo do PT, é profundamente desmoralizante que  tenha cabido à polícia e à justiça a tarefa de "descobrir" e trazer à tona uma rapinagem tão evidente e escabrosa como o propinoduto da Petrobrás, dando à grande imprensa mais uma imperdível oportunidade de expô-la à nação como uma tara original do movimento a que hoje ela se permite o luxo de chamar sarcasticamente de "lulopetismo"!

É difícil, a essa altura, imaginar um bom motivo pelo qual a classe trabalhadora brasileira sairia espontaneamente em defesa de um governo seriamente suspeito de conivência interessada - ainda que por motivos de financiamento de campanhas eleitorais - com a indústria da corrupção. E o  que é pior, reincidente!, se considerarmos que Lula e Dilma são a continuidade do mesmo movimento histórico.   

E a ironia da história é que, justo no momento em que mais precisa da classe social que seu nome diz representar para enfrentar as hienas de plantão - porta-vozes de um empresariado que sempre, e ainda mais depois que inúmeros de seus executivos foram apanhados com a boca na botija, preferiu o anonimato (e a boa vizinhança com os quarteis) - o Partido dos Trabalhadores se vê na contingência de ter de responder, com as armas do adversário, a uma crise econômica que até as pedras sabiam que um dia iria chegar. Ou alguém pensa seriamente que, na economia contemporânea, um país está livre de ciclos recessivos e freadas bruscas só porque os especialistas em negociações trabalhistas e arranjos parlamentares ocupam os postos-chaves do poder político? 

Pois este mesmo governo está prestes a pedir à classe trabalhadora, por meio do ministro banqueiro, que pague a conta de um programa de gastos públicos que, se bem lhe proporcionou uma boa década de emprego seguro e recuperação salarial, foi amplamente moldado pelas necessidades de um pequeno comitê de empreiteiras, concessionárias, incorporadoras, bancos e multinacionais do entretenimento esportivo. 

Como esquecer que as reivindicações da meia-passagem e da abertura das contas das concessões de transportes estiveram na base da surpreendente revolta de junho de 2103 - um quase incêndio nacional inflado pelo imenso mal-estar político com os gastos para a Copa do Mundo e os incríveis privilégios concedidos às empreiteiras e à FIFA?

Aviso, portanto, não faltou. 

Eu acredito que o trabalhador comum continua muito mais interessado em encher a panela do que em fazer dela tamborim, o barulhento passatempo que anda mobilizando - não sem alguma razão, é preciso admitir - os bairros mais valorizados e bem aquinhoados de serviços das grandes cidades. Mas, cá entre nós, em nome do quê ele irromperia na cena política, como membro de sua classe, sem sequer ter sido chamado e justo na pior hora, anos depois de dispensado pelas lideranças de seus pais como um traste obsoleto e até inconveniente no paraíso do desenvolvimentismo socialmente concertado?

Meu palpite – porque em coisas do coração nunca se pode ter certeza – é que a classe trabalhadora brasileira está irremediavelmente estranhada com o seu partido, e pelo pior dos motivos: anos de indiferença e autoindulgência com boemia, esbórnias e infidelidades, agravos que, como todo mundo sabe, não só não se reparam com casa, comida e roupa lavada como deixam ressentimentos difíceis de curar.

Resta saber quão prolongado e doloroso será o divórcio. E, caso ele se consume, se a rejuvenescida senhora pretende, um dia, voltar a se casar. 


2015-03-21