domingo, 11 de março de 2012

Trilha sonora: O quereres

 
Caetano Veloso

O quereres
Caetano Veloso

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alta, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca a dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero e não queres como sou
Não te quero e não queres como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, Fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Deus nos acuda!

The Telegraph 23-02-2012, por Louise Armistead
https://www.telegraph.co.uk/finance/financialcrisis/9098559/Whats-the-Greek-debt-crisis-all-about.html
What's the Greek debt crisis all about?
Mail Online 29-06-2011
 
http://www.dailymail.co.uk/news/article-2008905/Greek-vote-Protests-Athens-MPs-debate-EUs-25bn-cuts.html
Clique na imagem para ampliar


(..) Who's holding the debt?

Banks in Germany and France have the biggest exposure to Greek debt. According to the Bank for International Settlements they hold $22.6bn (£14.4bn) and $15bn of Greece's government debt respectively. These numbers soar with estimated private sector exposure - to $34bn for Germany and $56.7bn for France.

Behind the debt are vast amounts of CDOs - complex financial instruments bought by investors from investment banks to insure the debt - adding another threat from default.

Outside the eurozone, exposure to Greek debt is relatively small. But, whatever Brussels says, Greece is not a unique case: Portugal, Ireland, Italy and Spain also have vast debt piles that are also held by global banks.

British banks hold just $3.4bn of Greek sovereign debt and a total of $14.6bn with private lending exposure. But it has far closer links with Ireland, the UK’s biggest trading partner. And with London at the centre of European financial services, Britain also stands in the firing line of any banking crisis. (..) 

2012-02-24

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Trilha sonora: Até Pensei


Chico Buarque


Até Pensei
Chico Buarque

Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caia
Toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via
 
Do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade morava tão vizinha
Que, de tolo, até pensei que fosse minha

Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
E a dona dos olhos nem via

Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a enganar nunca me vinha
Eu andava pobre, tão pobre de carinho
Que, de tolo, até pensei que fosses minha

Toda a dor da vida me ensinou essa modinha
Que de tolo até pensei que fosse minha

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Desgraça pouca é bobagem

El País 06-02-2012, por A. Mars
https://elpais.com/economia/2012/02/06/actualidad/1328556523_864402.html


La exigencia de más sacrificios bloquea el acuerdo político en Grecia

O primeiro-ministro Papademos
oferece aos negociadores da
troika um pequeno sacrifício do
povo grego para honrar a
dívida do país com a banca
da União Europeia
 
El segundo rescate financiero de Grecia se articula en dos negociaciones, la de la banca para la quita de deuda y la mantenida con la llamada troika —formada por la Unión Europea, el FMI y el Banco Central Europeo—, que este fin de semana entraron en fase crítica. El primer ministro del Gobierno de transición griego, Lukas Papademos, necesita el apoyo de los tres partidos que respalda el Ejecutivo —el socialista Pasok, el partido de centro-derecha Nueva Democracia y el derechista Laos— para aceptar un nuevo programa de recortes a cambio del auxilio financiero.

Las fuerzas políticas consienten el objetivo global de recortar el gasto público por un valor equivalente al 1,5% de su PIB, unos 3.000 millones de euros. Ayer, el Gobierno heleno anunció que acepta el despido de 15.000 funcionarios este año, dentro del plan global de reducir hasta 150.000 empleos públicos hasta 2015. Pero hay otros frentes abiertos respecto a un nuevo recorte en las pensiones y la rebaja del salario mínimo por debajo de los 600 euros (ahora es de 750) o la eliminación de las dos pagas extraordinarias anuales. Se trata, en resumen, de llevar a cabo una dura devaluación interna en el país vía recortes.

2012-02-07

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Mal-estar em Bucareste

NY Times 19-01-2012, por Nicholas Kulish

Romanian Protesters Urge Government’s Ouster
Foto Bogdan Cristel / Reuters / NY Times
Thousands of protesters gathered in Romania’s capital on Thursday to demand the ouster of the government and new elections, as a week of demonstrations against far-reaching austerity measures and years of difficult reforms seemed to gain strength.

Economic frustrations have spilled into the streets here, as they have in Spain and Greece. Protesters in University Square downtown shouted chants calling for the resignation of President Traian Basescu and his ally, Prime Minister Emil Boc.

(..) The wave of protests, which have spread across the country, broke out after a popular health official resigned last week over government proposals to overhaul the health-care system. The official was reinstated this week, and a controversial proposal to partly privatize the medical emergency-response system has been shelved for now, but the protests have continued. (..) 

2012-01-20

domingo, 15 de janeiro de 2012

Trilha Sonora: Índios

Legião Urbana


Índios
Renato Russo


Quem me dera ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem
Conseguiu me convencer que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha

Quem me dera ao menos uma vez
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano de chão
De linho nobre e pura seda

Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente

Quem me dera ao menos uma vez
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
Fala demais por não ter nada a dizer

Quem me dera ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto
Como o mais importante
Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente

Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês
Sua maldade, então, deixaram Deus tão triste

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho, entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do iní­cio ao fim

E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi

Quem me dera ao menos uma vez
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes

Quem me dera ao menos uma vez
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos obrigado

Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho, entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim

E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Equilíbrio Geral e Eficiência Econômica

El País Economía 04-01-2012, por Manuel V. Gómez

España pierde 1.000 empleos al día

Diciembre acaba con un nuevo máximo histórico de 4.422.539 parados - La Seguridad Social pierde casi 360.000 afiliados en la segunda mitad de 2011

Montagem: Avebarna
España tenía que salir del hoyo del paro en 2011. Todos los pronósticos apuntaban a una leve -y deseada- recuperación del empleo. En cambio, el hoyo se ha hecho todavía más profundo. Cada día se ha cobrado unos 1.000 puestos de trabajo si se tiene en cuenta la afiliación a la Seguridad Social. Y los 4.422.359 parados que se registraban en las oficinas de empleo el pasado 31 de diciembre, 322.286 más que el año anterior, han vuelto a marcar un nuevo máximo histórico, el enésimo de esta interminable crisis que va ya camino de su quinto año.

La sempiterna tragedia griega que vive el euro se agravó en verano. La frágil confianza en la que se asentaba la recuperación española se evaporó. La economía ahora se contrae y su peor consecuencia, el paro, crece sin cesar. En diciembre se sumaron 1.897 desempleados más que el mes anterior, según el Ministerio de Empleo. Un número, a priori, bajo que sumado a los que se han contabilizado en una nefasta segunda mitad del año ha dado al traste con todos los pronósticos emitidos. (..) 

2012-01-09

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Todas são primaveras, umas mais floridas do que outras


Praça Tahir, Cairo, dezembro de 2011
A pressão das classes dominantes estadunidense e norte-européias sobre o mundo árabe-muçulmano vem aumentando na razão direta da profundidade do atoleiro em que se debate o capital na era da finança globalizada.

Inquietos, os povos do mundo sentem crescer o ritmo da coreografia macabra que os EUA, a Europa e Israel executam ao redor do regime dos aiatolás, e se perguntam: no Afeganistão, teria sido por causa da destruição das torres gêmeas de Nova York; no Iraque, das míticas armas de destruição em massa – e ambos os países estão hoje em ruínas; no Irã, será por causa do programa nuclear – exclusividade na região, por "direito de império", dos generais paquistaneses e sionistas amigos do “Ocidente”. Quando é que esse pesadelo vai acabar? Quando o petróleo secar?

A pressão se manifesta em todos os terrenos: militar, econômico, diplomático, político e cultural. A intervenção militar seletiva e oportunista dos Estados centrais e OTAN nas revoluções democráticas em curso na região – cujo exemplo mais claro foi a Líbia, podendo se repetir na Síria – é apenas um dos meios de que a finança global lança mão para se apossar, com um mínimo de “custos de intermediação”, da totalidade das reservas de petróleo da região e eliminar focos de resistência ao seu domínio sobre os recursos essenciais disponíveis no mundo. Hoje é o petróleo; amanhã poderá ser... a água.

Para tapar o buraco legado pela explosão da bolha financeira de 2008 e se recapitalizar sem levar à ruptura – o que é muito importante – o sempre delicado equilíbrio social europeu, a finança globalizada, em sua desesperada fuga para diante, parece procurar instintivamente a ampliação rápida e radical de seu domínio sobre as fontes mundiais de petróleo.

Não lhes basta o petróleo que já têm sob controle: os países centrais precisam desesperadamente de todo o petróleo disponível nos depósitos do Norte da África e Oriente Médio, seja para seguir movendo a custo relativamente baixo a sua decadente e insustentável indústria automotiva – razão pela qual outra frente de guerra já está aberta, sobretudo nos EUA, contra o ambientalismo em geral – seja para dar novo lastro à espiral de valorização parasitária de seus capitais à base de securitização de contratos e especulação imobiliária, os verdadeiros motores dinâmicos da economia de mercado contemporânea.

Para o capital globalizado, trata-se somente de sobreviver, não importando que arraste consigo o planeta inteiro à ruína - econômica, política, cultural e, finalmente, ambiental.

Como brinde pela conquista do acesso ilimitado ao petróleo, as potências almejam também, é claro, incorporar ao mercado mundial por elas controlado todos os fatores de produção (capitais, terra, mão de obra) e potenciais mercados árabes consumidores de capitais e mercadorias, eventualmente bloqueados pela vigência de instituições remanescentes dos movimentos de independência nacional do segundo pós-guerra.


Gamal Abdel Nasser 
Este parece ser o cerne do conflito entre a finança global gravemente ferida, mas longe de morta, e os califados nacional-burocráticos resultantes da lenta, porém inexorável, degeneração dos regimes herdeiros dos movimentos nacionalistas árabes do terceiro quarto do século XX.

Foi no marco do movimento nacional-desenvolvimentista conhecido, de maneira só aparentemente contraditória como pan-arabismo, que se afirmaram a República Árabe do Egito, governada por Nasser – que nacionalizou o Canal de Suez – a partir de 1953, a República Árabe da Síria (unida ao Egito entre 1958 e 1961 como República Árabe Unida) e, finalmente, a República da Líbia (unida ao Egito entre 1972 e 1979, como Confederação das Repúblicas Árabes); rebatizada como república "Árabe, Popular e Socialista” a partir 1969-1970, a Líbia de Kadafi nacionalizou bancos, empresas e os recursos petrolíferos do país.
França, Inglaterra e Israel
reagem militarmente
à nacionalização do
Canal de Suez em 1953 

A disputa, por parte da “comunidade internacional” (capital globalizado, Casa Branca, OTAN e grande imprensa), do significado da expressão “primavera árabe”, tem um sentido claro: dar à revolução democrática pan-árabe – que não aspira essencialmente senão a pão, terra, democracia e, como sempre, independência nacional – o significado de uma continuidade, mais que um eco tardio, da revolução democrática leste-européia que decretou o fim da burocracia soviética e restabeleceu o “livre” mercado nos países onde o essencial dele havia sido banido.

Trata-se, para esse simulacro de “comunidade internacional”, de convencer os trabalhadores e camadas médias do mundo inteiro de que o que querem a juventude, os trabalhadores e os pequenos proprietários árabes é se livrar dos restos de limitações à propriedade herdados do panarabismo e se ajoelhar de admiração ante os prodígios econômicos de Wall Street , da City e de Frankfurt.

Comparando-se a atitude da grande imprensa da “comunidade internacional” em face das revoltas democráticas na Tunísia, Egito, Bahrein, Qatar, Iêmen, Líbia, Síria etc. pode-se concluir: todas são primaveras, mas algumas mais floridas do que outras – conforme a afiliação política e histórica das respectivas famílias governantes.

No centro dessa encruzilhada está, porém, o Irã, um país muçulmano não árabe palco da mais tardia (1979), violenta e, em certo sentido, intrigante das revoluções nacionais do Oriente Próximo, erguida sobre os escombros da tradição nacionalista laica legada por Mossadegh (que nacionalizou o petróleo iraniano em 1952) mas também por Nasser, Kadafi e até por Arafat.

Por ser, talvez, a mais tardia do mundo muçulmano – sufocada durante quase 25 anos sob o tirânico reinado pró-EUA do xá Reza Pahlevi –, a revolução iraniana de 1979 marcou, por outro lado, a derrocada e submissão aparentemente definitivas do nacionalismo democrático laico e das pretensões pseudomarxistas do outrora poderoso, mas já então decadente Partido Comunista Iraniano (Tudeh). Com Khomeini, a revolução nacional e anti-imperialista começa a se converter, em todo o Oriente Médio, Ásia Menor e até na Indonésia – numa palavra, em todo o mundo muçulmano -, em “revolução muçulmana”, dando ao sentimento anti-imperialista uma forte conotação de resistência civilizacional.

O xá Rehza Pahlevi e a
imperatriz Farah Diba
em seu ambiente: a capa
da Paris Match
 
Foi sustentando Reza Pahlevi até o limite do absurdo que os EUA e a Grã-Bretanha conseguiram a proeza de dar justificativa histórica, em fins do século XX, ao renascimento, no Irã, do Estado teocrático muçulmano, que emergiu como uma forma sui-generis de regime bonapartista de aiatolás apoiados numa juventude islâmica radicalizada e numa milícia de extração popular cujas oscilações à esquerda lhe dão uma aparência nacionalista revolucionária e, à direita, claramente fascista.

E foi assim, creio, meio empurrado pelas circunstâncias meio por vontade própria de sua juventude revolucionária islâmica, que o Irã dos aiatolás se converteu em referência inevitável para toda revolução anti-imperialista no oriente muçulmano que não tenha uma liderança laica à altura das tarefas históricas a cumprir.

A teocracia iraniana é, para a dita 'comunidade internacional', o inimigo a ser destruído. Não por ser teocracia, muito menos por seu caráter inerentemente conservador e antidemocrático – que a plutocracia estadunidense e os nobres financistas britânicos não estão nem aí para essas futilidades – mas por ser, em alguma medida, nacional e anti-imperialista e, até por questão de sobrevivência, mais que tudo anti-EUA.

Sabe Alá aonde tudo isso vai dar!


2012-01-05

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Para lá de Bagdá, eu ia esquecendo: Feliz 2012!


Icaraí, Niterói - Ave, 2012
Foto Tiago Louza. Fonte: O Fluminense - Internet
Perdoem-me os amigos por lembrar coisas tristes num momento por todos dedicado à necessária celebração da passagem de ano, mas é que ao assistir, no Jornal das Dez, à interminável queima de fogos de Londres, não pude evitar um dejà vu que me levou à poltrona que ocupava em março de 2003, quando não apenas bombardearam Bagdá por motivo fútil – como se comprovou mais tarde – como fizeram daquilo um grande espetáculo pirotécnico midiático, quase uma festa de abertura das Olimpíadas do Oriente Médio. E ainda mais porque foram os chefes do Estado britânico que ajudaram a organizar aquilo lá. 

O resto do texto veio no embalo.

A queima de fogos da virada no ano em Icaraí,  Niterói, foi uma beleza. Pra ninguém botar defeito. Vinte minutos inteirinhos, contados no relógio! Quando passou dos 15 e já não se viam mais fogos em Copacabana por trás do costão do Pão de Açúcar, eu comecei a pensar no meu IPTU, espoucando no céu da Baía de Guanabara em todas as cores e configurações imagináveis. Batemos todos os recordes. Niterói está no mapa do mundo. Feliz 2012 para todos.

2012-01-02

domingo, 1 de janeiro de 2012

Queima de fogos em Bagdá



Em março de 2003, a queima de fogos de destruição em massa intitulada Shock and Awe (Choque e Pavor, leia-se puro terror) abriu umas das mais devastadoras operações de guerra (mais de 100 mil civis mortos) já organizadas pela moderna “comunidade internacional” (capital financeiro, Casa Branca, OTAN e grande imprensa) contra os povos da periferia mundial – com base em um conjunto de alegações comprovadamente falsas pelas quais nenhum chefe político (Bush, Rumsfeld, Blair, Aznar e outros) foi ainda convocado a prestar contas no Tribunal Criminal Internacional. 

Nove anos depois, a mesma “comunidade internacional” anda flertando com a reedição da catástrofe iraquiana no Irã, desta vez por causa do programa nuclear dos aiatolás. Apreensivos e desconcertados, os povos se perguntam por que alguns países podem ter bombas atômicas - clandestinas no caso de Israel - e outros não.

O planeta precisa desesperadamente de fontes de energia alternativas ao petróleo, mas parece que as potências ocidentais, com seus Estados semi-falidos e seus banqueiros afogados num emaranhado de papagaios financeiros “micados” que nem eles mesmos sabem como deslindar, precisam desesperadamente de mais petróleo do que já têm assegurado, nem tanto para consumir, talvez, quanto para lastrear os cacifes que fazem girar a roleta financeira global. Produzir, lamentavelmente, não dá lucro bastante. A solução é especular. 

Se Wall Street não for efetivamente ocupada por quem vive do próprio trabalho, corremos o risco de entrar 2013 ainda em 2012 assistindo pela TV, incomodamente instalados em nossas melhores poltronas, na companhia de amigos e familiares, à queima de fogos de destruição em massa em Teerã.

Que Deus e Alá e todos os outros ouçam, pelo menos desta vez, os nossos votos por um feliz 2012.

2012-01-01

domingo, 18 de dezembro de 2011

Trilha sonora: Le tombeau de Couperin


Maurice Ravel

Le Tombeau de Couperin is a suite for solo piano by Maurice Ravel, composed between 191
4 and 1917, in six movements based on those of a traditional Baroque suite. Each movement is dedicated to the memory of a friend of the composer (or in one case, two brothers) who had died fighting in World War I. Ravel also produced an orchestral version of the work in 1919, although this omitted two of the original movements.

Tombeau in the title is a musical term popular from the 17th century meaning "a piece written as a memorial". The specific Couperin, among a family noted as musicians for about two centuries, that Ravel intended to evoke is thought to be François Couperin "the Great" (1668–1733). Ravel stated that his intention was to pay homage more generally to the sensibilities of the Baroque French keyboard suite not necessarily to imitate or pay tribute to Couperin himself in particular.   

This is reflected in the structure which imitates a Baroque dance suite.
As a preparatory exercise, Ravel had transcribed a forlane (an Italian folk dance) from the fourth suite of Couperin's Concerts royaux, and this piece invokes Ravel's Forlane structurally. The other movements are similarly based on Baroque forms, with the Toccata taking the form of a perpetuum mobile reminiscent of Alessandro Scarlatti. Ravel also revives Baroque practices through his distinctive use of ornamentation and modal harmony. Neoclassicism also shines through with Ravel's pointedly twentieth-century chromatic melody and piquant harmonies, particularly in the dissonant Forlane.

Written after the death of Ravel's mother in 1917 and of friends in the First World War, Le Tombeau de Couperin is a light-hearted, and sometimes reflective work rather than a sombre one which Ravel explained in response to criticism saying: "The dead are sad enough, in their eternal silence."

The first performance of the original piano version was given on 11 April 1919 by Marguerite Long, Joseph de Marliave's widow, in the Salle Gaveau in Paris.  

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O Professor Merval ensina o dever de casa


Montagem: Avebarna
Indagado, na edição de anteontem à noite do Jornal das Dez, sobre a razão de os BRICs estarem, até certo ponto, conseguindo sobreviver à recessão mundial, o insigne Merval Pereira, mais novo usufrutário de um fardão da Academia Brasileira de Letras, respondeu: “Porque eles fizeram o dever de casa nas décadas de 1980 e 1990”.

Depois do “Maracanã em pó” (ver postagem anterior), uma aplicação localizada, temos aqui uma lição abrangente de capitalismo do desastre (ver Naomi Klein) ministrada pelo professor Merval: para poder  crescer, os países precisam, primeiro, se deixar devastar por políticas de ajuste estrutural de suas economias.

Para propiciar ao leitor  uma imagem do impacto do “dever de casa” do Professor Merval sobre a economia brasileira, eu apresento um gráfico com as taxas de crescimento do PIB brasileiro desde 1964. O dever de casa consistiu, como se vê, em aprender a escrever o “W”, que naquela época não fazia parte do nosso alfabeto.

Incluo, no gráfico, uma “linha de tendência” automática do Excel, que, a mim pelo menos, reforça a desagradável intuição de que o melhor que podemos esperar do alardeado avanço do Brasil ao status de potência econômica num mundo governado pelo capital financeiro é... uma economia cronicamente estagnada em taxas médias de menos de 3% muito antes de alcançarmos os retardatários do pelotão da frente!

Ao leitor interessado em se aprofundar no ensinamento do professor Merval e seus efeitos sobre a geografia humana mundial, eu recomendo enfaticamente a leitura de Planeta Favela, de Mike Davis (tradução de Beatriz Medina, pósfácio de Ermínia Maricato), Boitempo Editoral, 2006. O título do livro fala por si.

Seguem três passagens do capítulo “Desajustando” o Terceiro Mundo: o big bang da pobreza urbana.

“Em agosto de 1982, quando o México ameaçou deixar de pagar as parcelas da dívida, tanto o FMI quanto o Banco Mundial, em sincronia com os maiores bancos comerciais, tornaram-se instrumentos explícitos da revolução capitalista internacional promovida pelos governos Reagan, Thatcher e Kohl. O Plano Baker de 1985 (...) exigiu sem rodeios que os 15 maiores devedores do Terceiro Mundo abandonassem as estratégias de desenvolvimento conduzido pelo Estado em troca de novas facilidades para empréstimos e de continuar participando da economia mundial” [DAVIS, p. 156]. 
(..)
Segundo uma pesquisa da OIT, a pobreza urbana na América Latina cresceu extraordinários 50% somente na primeira metade da década, de 1980 a 1986. A renda média da população economicamente ativa caiu 40% na Venezuela, 30% na Argentina e 21% no Brasil e na Costa rica. No México o emprego informal quase dobrou entre 1980 e 1987, enquanto os gastos sociais caíram para metade do nível de 1980. No Peru, a década de 1980 terminou com uma “hiper-recessão” induzida pelo PAE [Plano de Ajuste Estrutural] que, em três anos, reduziu o emprego formal de 60% para 11% da força de trabalho urbana (...) [DAVIS, p. 160].
(..)
Em todo o Terceiro Mundo os choques econômicos dos anos 1980 obrigaram os indivíduos a se reagrupar em torno da soma dos recursos da família, principalmente, da capacidade de sobrevivência e da engenhosidade desesperada das mulheres. Quando as oportunidades de empregos formais dos homens desapareceram, mães, irmãs e esposas, em geral, foram obrigadas a agüentar bem mais que metade do peso do ajuste estrutural urbano. (..) Como enfatiza a geógrafa Sylvia Chant, sob os PAES as mulheres urbanas pobres tiveram de trabalhar mais, tanto dentro quanto fora de casa, para compensar os cortes nos gastos com serviços públicos e da renda masculina; ao mesmo tempo, o aumento ou a criação de tarifas cobradas dos usuários limitaram ainda mais o seu acesso à educação e à assistência médica [DAVIS, p.161].

Tendo em vista tudo isso, não me surpreende a advertência dos pesquisadores do projeto Observatório Urbano da ONU: Em 2020 a pobreza urbana do mundo chegará a 45% ou 50% do total de moradores das cidades. 

Na dúvida, leitor, sobre as causas desse intrigante fenômeno, não hesite em  perguntar ao professor Merval Pereira, PhD, Jornal das Dez.

2011-12-08

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A montanha mágica

El País Economía 02-12-2011, por Lucía Abellán
https://elpais.com/economia/2011/12/02/actualidad/1322814773_850215.html

El parón económico en 2011 lleva a un nuevo récord del paro
Montagem: Avebarna.blogspot.com.br
Imagem original: El País

El paro despide los últimos días de Gobierno socialista con un nuevo récord. El registro de los servicios públicos de empleo contabilizó 59.536 desempleados más en noviembre, lo que eleva este colectivo a un máximo de 4,4 millones de personas tras cerrar su cuarto mes consecutivo al alza. La cifra, comunicada esta mañana por el Ministerio de Trabajo, duplica con creces la registrada el año pasado y casi coincide con la de noviembre de 2009, cuando se vivía lo que entonces parecía el momento más duro de la crisis. En la serie histórica solo el dato de 2008 empeora los de 2009 y 2011.

2011-12-05

sábado, 3 de dezembro de 2011

The day the world changed

The Guardian 01-12-2011, por Jill Teanor
https://www.theguardian.com/business/2011/dec/01/credit-crunch-pinpointed-august-2007

Credit crunch pinpointed to 9 August 2007 – the day the world changed

The beginnings of the global debt crisis were first signalled by former Northern Rock chief executive Adam Applegarth

The former boss of Northern Rock, Adam Applegarth, pinpointed the start of the first credit crunch as 9 August 2007. It was the "day the world changed," he said.

The European Central Bank and the US Federal Reserve injected $90bn (£45bn) into jittery financial markets that day, but it was still not enough to stop banks being frozen out of the markets they relied on for funding.

Downing Street has now declared that "we are experiencing a credit crunch," while the governor of the Bank of England, Sir Mervyn King, reckons the eurozone is already in one. (..)

The reference to a "crunch" is the refusal of banks to lend to each other and it worries policymakers as it risks stymying economic growth by restricting credit to business and individuals. Barely a year after Applegarth signalled the start of the credit crunch, Lehman Brothers collapsed, unleashing mayhem in the market and a series of bank bailouts. (..) 

2011-12-03

sábado, 26 de novembro de 2011

Roda gira gira roda

Al Jazeera 14-02-2011 Timeline: Egypt's revolution

A chronicle of the revolution that ended the three-decade-long presidency of Hosni Mubarak

Praça Tahir, Cairo
Uma das maiores virtudes da revolução democrática pan-árabe tem sido, paradoxalmente, embaralhar todas as cartas da sociologia e da política, prisioneiras até hoje do marco geopolítico da Guerra Fria.

O movimento das multidões norte-africanas não se ajusta aos gabaritos ideológicos dominantes na segunda metade do século XX, tampouco respondem às cabalas com que os EUA tentam exorcizar as lutas democráticas e nacionais do século XXI, o “eixo do mal” e o “terrorismo”: ele se expressa de maneira igualmente impetuosa e radical contra os califados autocráticos sustentados pelas potências da OTAN e contra os califados burocráticos apoiados pela antiga URSS.

Não é provável que vá muito longe, pela simples razão de que, em nossa época, se revoluções podem ser desencadeadas com fragmentos de programa democrático de alcance nacional, em nenhuma hipótese poderão ser concluídas sem um claro programa socialista de alcance mundial, patrocinado pelo trabalhadorado reconstituído como classe habilitada a extinguir a sociedade de classes.

Em todo caso, a Primavera Árabe significa que a roda do movimento histórico à propriedade e controle social dos meios de produção e distribuição planetários, engripada pela ferrugem da burocracia contrarrevolucionária de Moscou, dita comunista, voltou a girar.

2011-11-26

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O vazamento da Chevron e os royalties do petróleo


O vazamento da Chevron
Uma das piores conseqüências do vazamento de petróleo na Bacia de Campos é dar (literalmente) combustível à idéia de que a riqueza resultante da exploração do petróleo no Brasil não pertence à nação, mas aos Estados (ditos) produtores; ou de que a riqueza é da nação, mas de algumas “nações estaduais” mais que de outras.

Sei perfeitamente que muitas pessoas ao alcance deste blog compartilham essa idéia ou se deixam, de alguma forma, influenciar por ela. Eu os convido a refletir sobre o que podemos entender por nação, riqueza nacional, democracia e seu significado prático, histórico e presente. 

No bloco de cima do IDH brasileiro (2005) estão o DF e os estados de Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul (0,874-0,802, equivalentes a países como Hungria, México e Rússia). No de baixo estão, até hoje, Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte, Ceará, Pernambuco, Paraíba, Piauí, Maranhão e Alagoas – ou seja, Nordeste - (0,742-0,677, equivalentes a países como Jamaica, Egito, Gabão e África do Sul).

O PIB per Capita (2009) torna mais evidente a disparidade do desenvolvimento nacional: à parte o Distrito Federal (50.438), que se poderia considerar atípico, São Paulo (26.202) e Rio de Janeiro (22.102) lideram o ranking, com o Espírito Santo (19.145) em 6º, e  Maranhão (6.259) e Piauí (6.051) no fim da fila. O PIB per capita do Nordeste ainda é pouco mais de 1/3 do Sudeste. 

A distribuição dos royalties do petróleo não fará milagres num país ainda essencialmente dominado por uma oligarquia financeira e baronatos regionais (que parcela dos royalties do Maranhão, por exemplo, você acha que iria parar no patrimônio da família Sarney?), mas sem ela não poderemos avançar seriamente na via da redução das desigualdades regionais, que dirá da eliminação da miséria absoluta propugnada pelo governo federal.

Saltando por cima das  estatísticas e da governança, o que diríamos nós, fluminenses, sobre a repartição dos royalties do aquífero matogrossense num hipotético futuro movido a energia solar de custo próximo a zero, em que a maior  riqueza nacional fossem as nossas águas subterrâneas?  

E se pudéssemos voltar no tempo, o que decidiria a Constituinte de 1988 sobre a distribuição dos royalties do petróleo? Que posição teriam, àquela altura, os deputados constituintes do PT? 

O que decidiriam, por outro lado (vale refletir), sobre uma questão similar, as Assembléias Constituintes soberanas e democráticas porventura convocadas nos países altamente desiguais do mundo árabe hoje em luta contra suas tiranias nacionais - sócias, de uma ou outra forma, das grandes potências sedentas de petróleo barato? Acaso a riqueza do petróleo líbio deve pertencer, majoritariamente, às províncias petrolíferas litorâneas em detrimento das grandes unidades do extremo sul saariano ricas em... areia? Como é possível sustentar a unidade do país  sobre a base de uma tal definição de riqueza nacional? 

Infelizmente, o meu partido, o PT, não vem ajudando nessa discussão porque sua direção parece mais preocupada com as combinações eleitorais estaduais do que com a responsabilidade de explicar ao país como é que a questão da distribuição dos royalties se apresenta ao partido político da classe trabalhadora. 

A julgar pelo que se pode apurar na imprensa e no site do PT, a presidenta e alguns ministros e parlamentares são - afortunadamente - a favor da redistribuição, mas a direção partidária se faz de morta – como se a questão fosse absolutamente secundária. Nesse ambiente, os parlamentares petistas e diretórios estaduais se sentem inteiramente à vontade para colocar seus interesses eleitorais imediatos acima dos interesses dos trabalhadores e da nação: no Rio, saem às ruas com bandeiras do partido a gritar “contra a covardia”; no Piauí, vão à praça pública bradar pela tese contrária, que poderia estar baseada na mesma palavra-de-ordem. Parece democracia, mas eu penso que é rédea solta ao oportunismo. 

À parte os problemas de prevenção, controle e punição dos responsáveis pela catástrofe ambiental - que me parecem ter sido corretamente identificados pelo secretário Carlos Minc - o vazamento da Chevron só comprova, a meu juízo, a tese de que a justa partição nacional da riqueza petrolífera tem de levar em conta (1) os riscos, custos e externalidades negativas dos Estados onde se realiza a produção, transporte e transformação do petróleo, (2) a necessidade de um fundo nacional de emergências ambientais e (3) um prazo razoavelmente elástico para a desintoxicação dos estados “orçamentariamente viciados” em royalties. 

Como eu mesmo disse num “rasante” anterior (disponível na coluna ao lado) dessa estranha e gigantesca ave avistada, certa época, nos céus de Barcelona, eu aposto o meu HD que, se devidamente informados e democraticamente consultados, os trabalhadores brasileiros, fluminenses inclusive, bancariam esse ponto de vista perante toda a nação - e esta não votaria coisa muito diferente.

2011-11-23


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

De volta à Praça Tahir

O Globo 18-11-2011
https://oglobo.globo.com/mundo/egipcios-voltam-protestar-na-praca-tahrir-3265661

Egípcios voltam a protestar na Praça Tahrir

Milhares de manifestantes se reúnem no Cairo:
egípcios pedem fim da Junta Militar Foto: AP

Dezenas de milhares de manifestantes voltaram a se reunir nesta sexta-feira na Praça Tahrir, berço das revoltas da Primavera Árabe no Egito. Liderada por militantes de partidos políticos islâmicos, a multidão protesta contra supostas tentativas da Junta Militar, que governa interinamente o país, de aumentar seus poderes.

O Globo online desta sexta-feira 18-11-2011 informa que os 50 mil egípcios voltaram à Praça Tahir para protestar contra "o projeto de Constituição que deixaria as Forças Armadas livres do controle civil, sem ingerência do futuro governo". 

A matéria não esclarece se essa nova onda de manifestações egípcias faz parte, como suas congêneres síria, iemenita e líbia, da "primavera árabe" ou de um imprevisto e indesejável "verão muçulmano" - em pleno inverno.

Não é demais recordar que, quando do anúncio da queda de Mubarak, o âncora do Jornal Nacional, William Bonner, decretou,  inadvertidamente talvez, mas com indisfarçável regojizo e alívio, o "desfecho da crise" egípcia.

O buraco, como se vê, era bem mais embaixo. 

2011-11-21

domingo, 13 de novembro de 2011

Trilha sonora: Valse (Olho d'Água)

Paulo Jobim


Valse
Paulo Jobim
(Arranjo e regência Claus Ogerman)

Olho D’Água
Paulo Jobim
Ronaldo Bastos

E já passou, não quer passar
E já choveu, não quer chegar
E me lembrou qualquer lugar
E me deixou, não sei que lá

Não quer chegar e já passou
E quer ficar e nem ligou
E me deixou qualquer lugar
Desatinou, caiu no mar

Caiu no mar, Nena
Pipo, cadê você?
Dora, cadê você?
Pablo, Lilia, cadê você?

Beira Rio
Duas Barras
Morro Velho
Ponte Nova
Maravilha
Buracada
Sumidouro
Olho-D'Água

Não quer chegar e já passou
E quer ficar e nem ligou
E me deixou qualquer lugar
Desatinou, caiu no mar

Caiu no mar, Pedro
Chico, cadê você?
Lilo, cadê você?
Zilu, Zeca, cadê você?

Vista Alegre
Cruz das Almas
Maroleiro
Asa Branca
Bom Sossego
Santo Amaro
Poço Fundo
Montes Claros
Cachoeira
Mambucaba
Porto Novo
Água Fria
Andorinha
Guanabara
Sumidouro
Olho-D'Água



quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre a economia do futebol

Em 1975, quando o Fluminense contratou Roberto Rivelino, o meu pai pontificou: “Que absurdo, um jogador de futebol valer essa fortuna!" Algo me dizia que ele estava errado.

Em 1995, quando a “economia de serviços” era o tema da moda, eu disse a um incrédulo colega consultor em planejamento, num momento de inspiração, que “o Brasil exportar laranjas e importar suco embalado é quase a mesma coisa que exportar jogadores e importar futebol pela TV”.

Em 2006, quando meu professor preferido de economia urbana me revelou seu interesse em estudar bens que, como a terra, tivessem “preço de monopólio”, eu sapequei: “jogador de futebol”.

Aí, quando em 2008 o estouro da bolha pôs a nu o papel da indústria imobiliária no desenvolvimento capitalista contemporâneo, eu me dei conta de que não é coincidência o fato de traficantes e especuladores investirem em mega-projetos imobiliários e xeiques árabes e novos-ricos russos em times de futebol.

É por isso que, em 2011, quando ouço comentários ufanistas do tipo ‘o Brasil vai virar potência’, meu primeiro reflexo é pensar: ‘Certo: quando o Cartel de Medellín comprar a AFA e a N'drangueta a CBF e o Messi e o Rooney vierem jogar no Corínthias, o Ibrahimovich e o Nasri no Flamengo, o Cristiano Ronaldo no meu Fluminense, o Xavi no Cruzeiro, o Ribery no Boca Juniors, o Ozil e o Iniesta no River Plate, o Sneider no Peñarol, o Drogba na LDU, o Thiago Silva vier para o Santos fazer tripla com Neymar e Ganso e a Rede Globo vender a Libertadores para a Europa, Ásia e EUA pelo preço mais alto do mercado esportivo mundial!


2011-11-02