quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O vazamento da Chevron e os royalties do petróleo


O vazamento da Chevron
Uma das piores conseqüências do vazamento de petróleo na Bacia de Campos é dar (literalmente) combustível à idéia de que a riqueza resultante da exploração do petróleo no Brasil não pertence à nação, mas aos Estados (ditos) produtores; ou de que a riqueza é da nação, mas de algumas “nações estaduais” mais que de outras.

Sei perfeitamente que muitas pessoas ao alcance deste blog compartilham essa idéia ou se deixam, de alguma forma, influenciar por ela. Eu os convido a refletir sobre o que podemos entender por nação, riqueza nacional, democracia e seu significado prático, histórico e presente. 

No bloco de cima do IDH brasileiro (2005) estão o DF e os estados de Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul (0,874-0,802, equivalentes a países como Hungria, México e Rússia). No de baixo estão, até hoje, Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte, Ceará, Pernambuco, Paraíba, Piauí, Maranhão e Alagoas – ou seja, Nordeste - (0,742-0,677, equivalentes a países como Jamaica, Egito, Gabão e África do Sul).

O PIB per Capita (2009) torna mais evidente a disparidade do desenvolvimento nacional: à parte o Distrito Federal (50.438), que se poderia considerar atípico, São Paulo (26.202) e Rio de Janeiro (22.102) lideram o ranking, com o Espírito Santo (19.145) em 6º, e  Maranhão (6.259) e Piauí (6.051) no fim da fila. O PIB per capita do Nordeste ainda é pouco mais de 1/3 do Sudeste. 


A distribuição dos royalties do petróleo não fará milagres num país ainda essencialmente dominado por uma oligarquia financeira e baronatos regionais (que parcela dos royalties do Maranhão, por exemplo, você acha que iria parar no patrimônio da família Sarney?), mas sem ela não poderemos avançar seriamente na via da redução das desigualdades regionais, que dirá da eliminação da miséria absoluta propugnada pelo governo federal.

Saltando por cima das  estatísticas e da governança, o que diríamos nós, fluminenses, sobre a repartição dos royalties do aquífero matogrossense num hipotético futuro movido a energia solar de custo próximo a zero, em que a maior  riqueza nacional fossem as nossas águas subterrâneas?  

E se pudéssemos voltar no tempo, o que decidiria a Constituinte de 1988 sobre a distribuição dos royalties do petróleo? Que posição teriam, àquela altura, os deputados constituintes do PT? 

O que decidiriam, por outro lado (vale refletir), sobre uma questão similar, as Assembléias Constituintes soberanas e democráticas porventura convocadas nos países altamente desiguais do mundo árabe hoje em luta contra suas tiranias nacionais - sócias, de uma ou outra forma, das grandes potências sedentas de petróleo barato? Acaso a riqueza do petróleo líbio deve pertencer, majoritariamente, às províncias petrolíferas litorâneas em detrimento das grandes unidades do extremo sul saariano ricas em... areia? Como é possível sustentar a unidade do país  sobre a base de uma tal definição de riqueza nacional? 

Infelizmente, o meu partido, o PT, não vem ajudando nessa discussão porque sua direção parece mais preocupada com as combinações eleitorais estaduais do que com a responsabilidade de explicar ao país como é que a questão da distribuição dos royalties se apresenta ao partido político da classe trabalhadora. 

A julgar pelo que se pode apurar na imprensa e no site do PT, a presidenta e alguns ministros e parlamentares são - afortunadamente - a favor da redistribuição, mas a direção partidária se faz de morta – como se a questão fosse absolutamente secundária. Nesse ambiente, os parlamentares petistas e diretórios estaduais se sentem inteiramente à vontade para colocar seus interesses eleitorais imediatos acima dos interesses dos trabalhadores e da nação: no Rio, saem às ruas com bandeiras do partido a gritar “contra a covardia”; no Piauí, vão à praça pública bradar pela tese contrária, que poderia estar baseada na mesma palavra-de-ordem. Parece democracia, mas eu penso que é rédea solta ao oportunismo. 

À parte os problemas de prevenção, controle e punição dos responsáveis pela catástrofe ambiental - que me parecem ter sido corretamente identificados pelo secretário Carlos Minc - o vazamento da Chevron só comprova, a meu juízo, a tese de que a justa partição nacional da riqueza petrolífera tem de levar em conta (1) os riscos, custos e externalidades negativas dos Estados onde se realiza a produção, transporte e transformação do petróleo, (2) a necessidade de um fundo nacional de emergências ambientais e (3) um prazo razoavelmente elástico para a desintoxicação dos estados “orçamentariamente viciados” em royalties. 

Como eu mesmo disse num “rasante” anterior (disponível na coluna ao lado) dessa estranha e gigantesca ave avistada, certa época, nos céus de Barcelona, eu aposto o meu HD que, se devidamente informados e democraticamente consultados, os trabalhadores brasileiros, fluminenses inclusive, bancariam esse ponto de vista perante toda a nação - e esta não votaria coisa muito diferente.

2011-11-23