segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Especialidade da casa

Deu no PT online 
Por Agência PT de Notícias 14-12-2015

PT-SP está mobilizado em defesa da democracia 


Quando Cunha abriu o processo de impeachment contra Dilma, pegando, ao que parece, e por incrível que pareça, a cúpula petista de calça curta, o presidente do PT paulista Emídio de Souza anunciou aos quatro ventos que moveria céus e terras para “formar uma frente ampla, multipartidária, contra esse ataque direto à democracia”. Em especial, propunha procurar “representantes da Rede Sustentabilidade, comandada pela ex-senadora Marina Silva, e do PSOL para, juntos, formarem no Congresso um bloco contrário à derrubada da presidente Dilma.” Na ocasião, disse o secretário-geral da CUT, Sérgio Nobre: “Vamos reunir todos os atores em defesa da democracia. Vamos sentar e definir uma estratégia comum em defesa da democracia”.[1]

Contabilizada, porém, a chocha domingueira pró-impeachment e deduzido que o fogo dos desiludidos com as pedaladas de Dilma e as reinações do PT fora apagado pela descrença generalizada em Cunha, Temer, Renan, Aécio et caterva, eis que, na reunião do Diretório estadual do PT-SP preparatória para o ato do dia 16, em São Paulo, com a participação de “representantes de movimentos sociais e sindicais, prefeitos, parlamentares e militantes [que] lotaram o auditório”, o mesmo Emídio de Souza passa a clamar pela unidade... "da militância contra o golpe”, ressaltando que “a militância está pronta para mostrar suas forças nas ruas - ‘Eles [a direita] colocaram 10 mil. Nós podemos colocar 100 mil’. A militância deve manter a confiança [de] que vai sair vitoriosa diante dessa tentativa de golpe”. [2] [Itálico nosso]

Recapitulando: algum dirigente do PT procurou a Rede e o PSOL para formarem no Congresso um bloco contrário à derrubada da presidente Dilma? Algum representante do PT procurou a Rede e o PSOL para “definirem uma estratégia comum em defesa da democracia”? Alguma delegação do PT procurou a Rede e o PSOL para discutirem a convocação de uma jornada nacional anti-impeachment à altura da gravidade da situação?

Não.

Passado o surto de pânico, restabelece-se entre os comandantes petistas essa estranha normalidade em que, a despeito da profunda crise de representatividade política em que segue mergulhada a nação, da evidência de que o Estado brasileiro está adjudicado a um petit comité de empreiteiras, bancos e concessionárias e dos claros sinais de decomposição da ordem constitucional democrática tal como definida na Carta de 1988, tudo se resume às ameaças contra Dilma e à sobrevivência política e material do PT - seu semi-governo, suas lideranças, seu aparato, sua militância e, para dizê-lo com educação, sua "área de influência imediata". O mundo exterior não existe, ou melhor, existe, mas é inteiramente povoado de "fascistas", "direitistas" e "coxinhas", todos inimigos da "democracia" e dos "avanços"La démocratie, c’est nous! Nem a renovada classe trabalhadora brasileira - cuja vasta maioria, atônita com os cambalachos feitos em seu nome e com a perspectiva de ser chamada a pagar a fatura da retomada do crescimento econômico, não segue, evidentemente, partido algum - parece interessar ao partido que ela mesma criou para representá-la na já remota década de 1980. 

"Eles colocaram 10 mil. Nós podemos colocar 100 mil". Para o PT de 2015, passeatas mais numerosas que as domingueiras pró-impeachment são sinônimo de missão cumprida. As maiorias que realmente contam são as das comissões parlamentares e, acima de todas, a do STF!  

Diz o PT online que o presidente nacional da sigla, Rui Falcão, presente à reunião, “fez uma análise da conjuntura e pediu mobilização permanente”. Disse, ainda, “que vai conversar com representantes do governo Dilma para propor algumas mudanças que permitam a retomada do crescimento e não permitam manobras de Eduardo Cunha (..) e frisou que a militância deve estar atenta, pois o impeachment é um julgamento político". Segundo ele, "cessou o momento de fazer alianças com alguns setores da burguesia: vamos à luta, pontuou”. [3]

Vamos à luta, companheiros. Sozinhos, é claro. Acordos com a Rede e o PSOL, mobilização ao lado de gente que não controlamos, ainda que com objetivos estritamente definidos são um imenso perigo: o eventual sucesso de uma ampla campanha nacional e multipartidária contra o impeachment poderia suscitar perguntas inquietantes como por que preferimos governar com Cunha e Temer a governar com Marina e Alencar, ou, melhor ainda, por que a presidenta não inicia um movimento por um Congresso Constituinte para acabar com a República das Empreiteiras e refundar a democracia no Brasil?

Não queremos mais alianças com “alguns setores da burguesia”, garante Falcão. Só com outros.


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[1] O Globo online, “PT e CUT se reúnem para criar frente contra impeachment”, http://oglobo.globo.com/brasil/pt-cut-se-reunem-para-criar-frente-contra-impeachment-2-18230707#ixzz3tUzY8YRP

[2], [3] Agência PT de Notícias,“PT-SP está mobilizado em defesa da democracia”, http://www.pt.org.br/pt-sp-esta-mobilizado-em-defesa-da-democracia/


2015-12-21