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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Desinformando Khadafi



Na manhã seguinte à morte de Khadafi, a primeira meia página de O Globo estampava, em letras garrafais: “O Fim Violento de um Ditador”.

Eu fiquei imaginando quantos homens-horas de jornalistas da editoria terão sido gastas para imaginar manchete tão perfeitamente confortante e ambígua. Não vi ninguém parado na banca querendo saber das circunstâncias. Que importa? Se a Casa Branca, a OTAN e a TV Globo – ou seja, toda a “comunidade internacional” – garantem que o sujeito era um ditador sanguinário e por isso merecia morrer, que diferença faz quem o matou, como matou e por que matou?

Que importa se o regime atribuído à 'primavera líbia' não fez a menor questão de capturá-lo vivo para ser pública e transparentemente julgado por seus crimes?

A nossa presidenta Dilma Rousseff, num saudável reflexo, disse: “Não se comemora a morte de qualquer líder”, querendo obviamente dizer “Não se comemora a morte de um chefe de Estado, seja de que Estado for”. Diplomaticamente perfeito. Só me pergunto se ela, que conheceu na carne os porões da ditadura, não tinha em mente, mais do que a máscara torturada de Khadafi, o espectro distante, mas ainda assustador, de Allende.

2011-10-25


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A revolução democrática pan-árabe e o assassinato de Khadafi


Se o movimento das multidões líbias - parte integrante da revolução democrática pan-árabe iniciada na Tunísia e cujo ponto mais alto até aqui foi o Egito de Mubarak - tivesse desembocado numa revolução radicalmente democrática como, digamos, a Francesa, que investigasse devidamente os negócios de Khadafi, sua família e seus sicários com os líderes e serviços secretos das potências imperialistas e suas empresas petroleiras, o califado burocrático da Lìbia teria, quem sabe, acabado com a condenação à morte do califa... por traição à memória histórica da revolução nacional pan-árabe, em cujo panteão figuram personagens ilustres como Mossadegh, do Irã, Nasser, do Egito e... Khadafi, da Líbia! 

Ocorre, porém, que Khadafi foi executado por instigação da propaganda dos Estados Unidos e aliados europeus e provável ordem direta dessa organização de origem e composição desconhecidas chamada Conselho Nacional de Transição, reconhecida com indisfarçável sofreguidão e interesse pelos governos da França e Itália logo nos primeiros dias de transformação das manifestações de rua em conflito armado. 

O motivo? É o que explica, por incrível que pareça, O Globo online deste 21-10-2011: 

Qualquer tribunal poderia dar a Khadafi uma nova oportunidade de constranger tanto os novos líderes da Líbia quanto as potências internacionais e lembrar questões que todos preferem deixar esquecidas. Além disso, ele poderia relembrar laços com importantes companhias de petróleo que na última década assinaram contratos bilionários com o regime. (“Morte de Khadafi evita julgamento longo que poderia dividir a Líbia e constranger líderes ocidentais”. O Globo Online, 21-10-2011)

A matéria d'O Globo Online é uma confissão aberta do caráter absolutamente antidemocrático e pró-imperialista - numa palavra, reacionário - da intervenção da OTAN na Líbia em comum acordo com o CNT - a nova liderança líbia assumida a priori pela "comunidade internacional" como legítima encarnação e representação do que ela chama de "primavera árabe". (Continua)

2011-10-21